sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DE VITÓRIA

O manequim Vitória é um projeto realizado no CAPS-AD CENTRA-RIO por pacientes da oficina do terapeuta João.  representa a vida que renasce com a recuperação.  Representa superação.   Recebemos a missão de criarmos uma história de vida para o manequim.  Eis a minha história:

VITÓRIA, vitória!  Vitória era eu.

 Mas uma vez jogada no fundo de um bar.  Uma recaída.  Eita, doença maldita!  Mesmo em tratamento eu ainda buscava consolo nas drogas.  Anestesia para a vida que insistia em exigir minha presença. Sempre chegava ao mesmo ponto: escondida, quase em pânico, com medo, na compulsão, pancada, falida, na solidão. Só com muito álcool pra derrubar aquele estado.  Ficava ali observando o movimento, na ilusão de parecer “normal”.  Foi assim que a conheci.  O que mais me chamou a atenção foi sua alegria e descontração,  também, a beleza, era uma mulher bonita.  Dessas que não tem idade.  O ar se encheu com seu perfume.  Chegou com várias pessoas para se divertir.   Bebia, cheirava e fumava, sem parar. Como eu, mas  permanecia linda.  E, eu, presa no fundo daquele bar, paralisada sob o efeito avassalador da dependência química cínica.  Em muitos aspectos éramos iguais.  Beleza, boa apresentação, cheirosas e arrumadas.  Ela, feliz, cheia de vida, de amigos e prazeres.  Eu, cheia de nada, de vazio e desejos de morte.  Lembrei que também fui assim, anos atrás.  Aos poucos, tudo foi sendo engolido pela progressão da doença ativa.  Senti imensa tristeza.   A noite já ia alta.  Chamavam-na pelo nome, à toda hora: VITÓRIA, Vitória. Saiu antes do romper d’aurora.  Quando o dia chegou, todos já se tinham ido do bar e, eu, do mesmo jeito no mesmo lugar, ainda mal.  Saí.  Destino: um refúgio da luz do dia, “o beco dos pancados”.  No caminho cruzei com uma mulher, o olhar arregalado, seu semblante expressava tormento.  Revolvia o lixo, no chão procurava.  Nos gestos, sofrimento.  O olhar vazio como folha ao vento.  Me detive e, no meu pensamento, por um breve e eterno momento, senti suas dores, seus sentimentos.  Nossos olhares se cruzaram num frágil reconhecimento, Vitória, era ela mesma!  Sentamos no beco, dividimos nossa miséria.  Com a droga ela se acalmou e, sua história me contou...  Nasceu e cresceu numa comunidade carente.  Largada na vida, foi  mulher, menina, bandida.  Violentada em sua integridade.  A  droga sempre foi bem vinda.  Lutou e venceu muitas batalhas.  Sobreviveu, intacta, até aqui.  Sabia que era vitória, no nome e na trajetória.  Foi pobre, foi rica.  Amada, odiada, ferida.  Foi filha, foi mãe, foi amiga, amante querida.  Foi puta, foi ladra, traficante, jogada na pista.  Hoje, aposentada, trabalhadora sofrida.  Ciente  da sua medida.  Guerreira, muitas vezes vencidas. Mas nunca abatida.  Ainda diz sim a vida.  Enquanto ela, falava eu pensava      - Igual a mim, compulsiva!  Feliz por achar quem a escutasse, ajudando a sentir menos naquela hora.  Pois tudo era...  Agora!  Eu observava Vitória.  Ela era linda!  Mesmo desgraçada.  Jovem senhora.  Antes vestida de madame, agora  mendiga, favelada!  A droga levou todos os luxos.  Mas, só por aquela noite.  Ouvindo-a, tive esta certeza.  Falou da sua luta com as drogas.  Mostrou suas tatuagens.  Muitas.  Cada uma com seu enredo, marcas da vida.  Há!  Como era linda! Sobressaia sua beleza!  Aquela situação me deu coragem de ir para casa. Nos olhamos e, entendemos que juntas tínhamos força para sair dali, descançar, recomeçar. Voltar pra casa!  Vitória!  Instintivamente nos abraçamos, nos despedimos, agradecidas, solidariedade de irmãs. O nó esta desatado.  Livres, alcançamos vitória!  De repente, todo o meu corpo foi sacudido por um choro profundo, sentido.  Acordei!  Estava dormindo!  Dormindo, sonhei!  Sonhei com o passado.  Vitória era a personagem que havia em mim.  Na realidade das drogas muitas mulheres,(Marias, Helenas, Vitórias), tinham historias assim Vitória sou eu!  Eu sou vitória!  E, juntas somos vitória!  Hoje somos superação. Estamos em recuperação, vitória, vitória! Naquele dia voltei ao Centra-Rio, (referência no meu tratamento), não ia lá há algum tempo.  Na oficina da construção, montaram um manequim, criaram uma personagem.  Colocaram peruca, vestido, maquiagem e, em cada parte do seu corpo,      Cada companheiro fez uma imagem.  Da doença á recuperação, mostrando sua representação, em comunhão.  Colocaram um nome, escolheram em  votação  .E , para minha surpresa: Vitória, era o nome, em questão  O manequim é símbolo de sublimação para as mulheres na instituição.  Somos, de novo, meninas, guerreiras, mulheres.  Com grandes possibilidades. Vivendo verdade.  Em recuperação.  No corpo as marcas que o tempo deixou para lembrar, sem saudades e sem medos no coração. Que vitória é nosso destino e,   Vitória nos dá a mão!!!!
  Oi!  Muito prazer. Eu sou Vitória Raquel.  Vitória Roberta, Vitória Maria, Vitória Livonete, Vitória Lúcia, Vitória...........
  


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